Condensar em 15 minutos e poucas laudas o texto é meu difícil – e aceito – desafio. Meu primeiro recurso, para conseguir; remeter leitores e ouvintes a meus outros trabalhos, já publicados, nos quais abordo o tema, senão mais profunda, com certeza mais extensamente[1].
Minha hipótese de trabalho: a de que, assim como foram demonstradas conexões entre modernidade e crises de identidade de gênero, é possível fazê-lo no que tange à pós-modernidade e, assim, observar-lhes as diferenças.
Pude formulá-la a partir da obra de Jacques Le Rider, A Modernidade vienense e as crises de identidade[2]. No fim da década de 80, movido pelo grande interesse despertado em ambos os continentes do hemisfério atlântico-norte pelo tema finissecular daquela modernidade, o então doutorando[3] de Letras e Ciências Sociais (Estudos Germânicos) de Paris IV, defendia sua tese, sob a orientação de Jean-Marie Valentin que, reformulada, veio a ser publicada em livro, originalmente por Presses Universitaires de France.
Ao autor interessaram dois momentos finisseculares: um, as décadas finais do século XIX e iniciais do século XX, nas quais se inscreve a modernidade vienense, e o outro, a presente transição do século XX para o XXI, que ele vê marcada por questões pós-modernas e que se lhe afiguram genialmente prenunciadas por aquela modernidade.
Seduziu-me intelectualmente sua fecunda hipótese, com tanto brilho demonstrada, ao longo do livro, de que, numa modernidade tardia como o foi a vienense, se comparada com as de Londres, Paris, Berlim, por exemplo, teriam sido como que antecipados alguns dos grandes temas pós-modernos de nossa própria contemporaneidade.
Devo, todavia, omitir – e este constitui meu segundo recurso de concisão, para este texto – toda a démarche comparativa que, a partir desta hipótese, desenvolvi entre o que Le Rider nos oferece em relação à Viena moderna e as crises de identidade de gênero e as da Modernidade brasileira. No presente caso, o que omito é parte, ainda inédita, de um livro idem, em cuja versão final estou trabalhando. Ele trata, centralmente, de modernidades, modernismos e gêneros e a ele pertencem os três textos já publicados, produtos de um mesmo projeto, da linha de pesquisa “Cânones na Literatura”, dos programas de pós-graduação em Letras da UERJ.
Meu corte deixa de fora, portanto, deste trabalho não somente qualquer menção aos instigantes insights de Le Rider sobre Schreber, Weininger, Hofmannsthal, na “Segunda parte” – “A crise da identidade masculina”– de seu livro[4], mas também todo um método de leitura intertextual de suas obras (Weininger, Artaud e Kafka, por exemplo, Lawrence, Weininger e Bataille, sem esquecer Artur Schnitzler tampouco).Como, ainda, a magistral leitura que, a propósito de Bachofen, Wagner e Nietzsche, ele nos oferece do crepúsculo do patriarcado germanófono, bem como da emergência do matriarcado estético de Klimt.
Consequentemente, excluo também do presente texto, todo o correspondente paralelo brasileiro que desenvolvo, em minha pesquisa, partindo da modernização que marcou, entre nós, o crepúsculo do Segundo Reinado, nas décadas de 70 a 80 do século XIX, focalizado num approach ainda praticamente intocado, o do lado Habsburgo do segundo D. Pedro, da Casa de Bragança, no trono do Brasil. Ele é o objeto das recentes pesquisas de Gloria Kaiser, na seqüência de seu Dona Leopoldina, uma Habsburg no trono brasileiro[5]. Avançando pela República Velha, com a qual o século XIX brasileiro conclui e em que decorrem as três primeiras décadas do XX, meu paralelo brasileiro com as crises da modernidade européia contempla o contexto em que se produziram, no Brasil, a modernização urbana da então capital federal do Rio de Janeiro, sob a égide reformista de Pereira Passos, a ascensão de São Paulo a metrópole, no bojo do processo de industrialização, a Semana de Arte Moderna e toda a chamada fase de combate do nosso Modernismo literário e artístico contra as estéticas passadistas. Aí discuto, por exemplo, o matriarcado de Pindorama oswaldiano, bem como o significativo retrato crítico da formação de classe e gênero de um rapaz da burguesia patrícia e das identidades de classe, etnia e gênero, que é Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade. Aí adentro a época em que o Modernismo irá sair da margem para tornar-se canônico, entre nós, a era Vargas, auxiliada, então, não somente por relativamente extensa bibliografia sobre o tema, genericamente considerada, mas, de modo especial, pelos aportes que o livro de Sérgio Miceli, Intelectuais e classe dirigente no Brasil, trouxe à questão da crise do nosso patriarcalismo e à leitura de sua tematização literária, sobretudo no romance social nordestino que desponta em 30 e na poesia drummondiana sua contemporânea.
O que, entretanto, não posso deixar de mencionar, por constituir imprescindível enlace à démarche lógica do presente trabalho, diz respeito à contribuição que me veio, ainda, de Le Rider, de sua leitura da Primeira Grande guerra como desmoronamento da virilidade moderna – nas palavras do sexólogo Magnus Hirschfeld, por ele citado[6] a maior catástrofe sexual que, até então, atingira a humanidade dita civilizada – e dos fascismos emergentes enquanto reação a isto. Porque focalizo, por meu turno, o papel emblemático de uma outra guerra, a do Vietnam, para o rumo das décadas seguintes, de 80 e 90.
Desenvolvida sobretudo nos anos 60, e intensificada no final deles, em termos de efetivos militares norte-americanos no cenário dos combates, a guerra do Vietnam representou, em tempos de polarização ideológica da Guerra Fria, desenlace até, então, impensável, o da derrota da maior potência ocidental, não obstante todo seu aparato bélico, todo seu imenso arsenal tecnológico, inclusive de guerra química.
Com efeito, à medida que se evidenciava cabalmente como inviável uma vitória militar norte-americana, o alto custo do conflito armado, não apenas do ponto de vista financeiro, mas, também, humano, potenciado pelas imagens televisadas da violência e pela chegada dos corpos dos combatentes mortos à pátria, pelo retorno de veteranos neurotizados pela guerra, ia fazendo crescer o descontentamento, na opinião pública estadunidense e na de seus aliados, levando ao fim dos bombardeios e o início das negociações para pôr fim ao conflito.
Na mesma Paris, palco da paz de Versailles, consubstanciando no texto do tratado, as condições da paz obtida com a vitória dos aliados em 18, prolongam-se até 73 as negociações para o fim da guerra do Vietnam: o cessar fogo, a troca de prisioneiros, a retirada das tropas estrangeiras, a reunificação do Vietnam, dicotomizado, até então, entre Norte e Sul.
Se, como afirma Le Rider, a ascensão dos fascismos, durante aquele primeiro pós-guerra do século XX, teria sido a vingança machista a uma feminilidade que moldara a Modernidade, uma nova vaga feminista, por sua vez, encontraria, nos Estados Unidos dos anos da guerra do Vietnam, concomitantemente à luta dos negros em prol dos direitos civis, o solo propício a seu próprio combate, no duplo sentido, doméstico: travado desde o âmbito privado do lar até o espaço público e dentro das fronteiras do país.
Se as vanguardas modernistas, à frente o Futurismo marinettiano, deram o tom ao machismo glorificador da guerra –“ única higiene do mundo”, como preconizava o Manifesto de 1909-,apologeta do “desprezo à mulher”, ao findar a guerra do Vietnam, por sua vez, o mundo vivia a década consagrada pela ONU à Mulher.
Aproximamo-nos, enfim, do ponto central deste texto. Concordando com Le Rider, em que as décadas de 70 e 80 assistem à retomada, agora noutra clave, da feminização da cultura, da crise da identidade masculina, bem como da expansão generalizada de um androginismo, vemos, então, postas algumas das condições que ensejam o surgimento de transGêneros.
Sem pretender querer esgotar, nos escassos limites, de tempo e de extensão, deste trabalho, uma enumeração, mencionamos, todavia, apenas de modo a exemplificar, o desmoronamento de todo um quadro de valores tradicional, a erotização da cultura ocidental, e a contribuição desta nova vaga feminista, a partir do hemisfério ocidental norte, mas chegando e atuando até nas periferias do Ocidente, para a desestabilização de oposições e de referências tradicionais na área dos gêneros. A tudo isto se acrescentam avanços na biotecnologia e nas manipulações genéticas, abrindo, assim, horizontes, antes simplesmente impensáveis, a possibilidades transexuais.
É sob o signo da mutação, por seu turno, que Em nome do corpo Nízia Villaça e Fred Góes vêem o advento de um fenômeno como o de Madonna, enquanto “mulher que se faz passar por homem que por sua vez se traveste de feminino[7]. Como um dos lugares em que se produz a desnaturalização do gênero, o fenômeno concentra indefinição, ambigüidade, “transestética, transpolítica e transexual”,[8] como assinalaria Baudrillard.
Em Madonna, ainda segundo Nízia Villaça e Fred Góes, “a estratégia do travestismo e do feminismo pós-moderno” (...)”torna-se lugar de desestruturação daqueles projetos modernos, fundamentalistas, pelos quais o falo constituía a estrutura profunda para definir a diferença sexual[9] tornando aí o termo transexualidade um como que guarda-chuva, abrigando fenômenos distintos entre si, como o travestismo, drag queens, drag kings, transgênero.
Abre-se a questão à interdisciplinaridade da performance, de seu ator social, o performer não somente como artista mas também como ativista e acadêmico, na área dos debates sobre as identidades organizadas em torno a gênero e sexualidade.
[1] São eles: “Identidades engendradas”, cuja primeira versão foi publicada em José Luís JOBIM (org.) Literatura e identidades. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1999. p.219-239, e cuja segunda versão saiu em ADVIR,12, ASDUERJ, Rio de Janeiro, setembro de 1999, p.67-79, e “Roberta Close e M. Butterfly: transgênero, testemunho e ficção, que se encontra na Revista Estudos Feministas, vol.1, nos 1 e 2/ 1999, pp.37 a 52.
[2] Cujo original, Modernité viennoise et crises de l’identité, foi traduzido e publicado, em livro, no Brasil, pela Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, em 1993.
[3] E atualmente professor, na mesma Sorbonne.
[4] Vejam-se, a propósito, por exemplo, “Diferenças sexuais e bissexualidade”, “Nostalgia do feminino”, e, sobretudo, a bela leitura que é “A feminização do Presidente Schreber”.
[5] Traduzido e publicado pela Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, em 1997.
[6] Op. cit., p. 106
[7] Op. cit., Rio de Janeiro, Rocco, 1998.
[8] A Transparência do mal: ensaios sobre os fenômenos extremos, p.41-42.
[9] Op. cit., p188.